De Auschwitz a São Paulo: Como ciência confirmou morte de Mengele no Brasil


No dia 7 de fevereiro de 1979, há 40 anos, um idoso morreu
afogado em uma praia de Bertioga, São Paulo, depois de sofrer um AVC
Ele foi enterrado em um cemitério perto da capital. Seis anos depois, em 1985,
veio a notícia de que esse homem poderia ser Josef Mengele,
o cruel e notório médico de Auschwitz. A notícia
ganhou o mundo. Causou choque, surpresa e também
muita desconfiança. Fez o Brasil virar
palco de um esforço internacional para
comprovar se os restos mortais daquele
homem eram mesmo do criminoso nazista mais procurado da época. Eu sou Thomas Pappon e vou contar
nesse vídeo como foi o verdadeiro trabalho de detetive desses americanos, alemães e
brasileiros, em busca de respostas. E a espetacular descoberta do
dentista de Mengele, em São Paulo. A informação de que Mengele havia morrido
no Brasil e sido enterrado sob a identidade falsa de Wolfgang Gerhard veio
da própria família de Mengele, na Alemanha.
O fato é que todo mundo, em especial os sobreviventes do Holocausto, queriam saber se isso era verdade
Mengele era praticamente um símbolo das
atrocidades cometidas pelos
nazistas na 2ª Guerra. Ele chegou a Auschwitz, um complexo de campos de trabalho
forçado e de extermínio na Polônia, em maio de 1943
Ele fazia pesquisa sobre teses nazistas de purificação de raça e fez
experimentos em mais de 3 mil gêmeos, que eram entregues a ele assim que chegavam ao campo. Ele matou centenas
e dissecava seus corpos. Mengele não era o médico-chefe de Auschwitz
Mas foi chefe do corpo médico de Birkenau, que
foi o maior dos 40 campos de Auschwitz
Estima-se que morreram ali cerca de 1 milhão de pessoas durante a guerra
Cerca de 30 médicos trabalhavam em Birkenau.Fazia parte do
trabalho deles selecionar, de uma rampa, os prisioneiros que chegavam ao campo, entre os
que serveriam para trabalho forçado e os que iriam imediatamente para as câmaras de gás
Pelo jeito indiferente e frio com que Mengele fazia essa seleção na rampa, com gesto
da mão direita, é que Mengele recebeu o apelido de o Anjo da Morte. Apenas 200
dos chamados gêmeos de Mengele sobreviveram. Entre eles, a judia polonesa Jona
Laks. Ela foi deportada de um gueto na Polônia para Auschwitz, com sua irmã gêmea,
aos 14 anos. Jona deu um depoimento à BBC em 2015
Ela relatou como ele fazia cirurgias e até retirava órgãos sem anestesia. Se um dos gêmeos ficava
doente e morria, o outro era imediatamente assassinado. Hoje, sabe-se que
após a Guerra, Mengele passou um tempo escondido em uma fazenda na Bavária, no sul
da Alemanha. Em 1949, fugiu para Gênova, de onde embarcou para a Argentina
No final dos 1950, quando se viu ameaçado de extradição em meio à
captura de outros criminosos de guerra, fugiu para o Paraguai
Pouco depois, fugiu de novo, dessa vez para o Brasil. Sempre ajudado por terceiros,
ele morou em diferentes lugares do Estado de São Paulo: Nova Europa, Serra Negra, Caieiras,
e Diadema. Adotou a identidade de um amigo, Wolfgang Gerhard, que antes de
retornar à Áustria, seu país-natal, deixou seus documentos com Mengele. Em junho
de 1985, a ossada do suposto Wolfgang Gerhard foi exumada pela
Polícia Federal brasileira, para ser examinada no Instituto Médico Legal de
São Paulo, por especialistas do Brasil e também alguns dos cientistas forenses mais
respeitados do mundo. Duas equipes dos
Estados Unidos, uma do departamento de
Justiça e a outra da ONG Simon
Wiesenthal Center,
que apoiava o trabalho do maior caçador de nazistas da história. E outra equipe da
Alemanha Ocidental. Sob os holofotes e grande pressão da mídia mundial, os cientistas tinham
que testar a hipótese de que os restos exumados eram de um homem sobre o qual não se sabia quase nada
desde 1945. E é bom lembrar que as técnicas de identificação
por DNA ainda não tinham sido desenvolvidas
Eu conversei com um dos especialistas da equipe internacional que aterrizou em São Paulo,
o americano Eric Stover. Ele falou dos poucos dados que tinham na mão
para fazer a identificação dos ossos.
A idade portanto batia. Em 1979, Mengele teria 67 anos
Os especialistas também encontraram evidências de uma fratura na bacia
que pode ter resultado de um acidente de motocicleta que Mengele teria sofrido
em Auschwitz. Também foram encontrados traços de fraturas
curadas no ombro, na clavícula e no polegar direito. E uma depressão no osso
maxilar esquerdo, possível consequência de sinusite crônica
Ao final dos exames,
os especialistas americanos se reuniram no quarto do hotel em que estavam hospedados
para preparar o seu relatório. A redação ficou a cargo de Stover.
O relatório dos americanos concluiu com ‘razoável certeza científica’ que a ossada era de Mengele
A equipe
alemã também chegara à mesma
conclusão, pela análise que fizeram do crânio
usando uma técnica de superposição de imagens, desenvolvida
pelo antropólogo Richard Helmer. Ele sobrepôs fotos
do criminoso nazista sobre imagens do crânio e constatou
consistências em áreas-chave, como olhos, boca, nariz e queixo. Em uma apresentação
coletiva à imprensa no dia 21 de junho, o chefe Polícia Federal brasileira,
delegado Romeu Tuma, confirmou a identificação e a morte de Josef Mengele
Mas os cientistas ressaltaram que o veredito não era baseado em um exame conclusivo,
mas sim nas várias evidências que davam consistência à tese. Só em março de
1986, vários meses depois, é que apareceu o finalmente o raio-x
A descoberta se deve ao trabalho de detetive do então cônsul americano em São Paulo,
Stephen Dachi. Entre o material apreendido pela Polícia Federal nas casas em
que Mengele morou em São Paulo, havia um diário. Esse diário foi examinado e autenticado
por especialistas em caligrafia do Departamento de Justiça americano
que informou ao cônsul que Mengele mencionava no diário ter feito um tratamento de
canal. O diário fazia uma única menção a duas consultas, feitas em dezembro de
de 1978, com o ‘Doutor Gama em Sama’. Dachi contou mais
tarde que passou essa informação à Polícia Federal, que retornou algumas semanas depois
dizendo que não tinha conseguido achar o Doutor Gama em Sama. O cônsul, que por acaso,
tinha sido dentista, resolveu continuar a investigação por contra própria.
Ele notou um padrão no diário, que seria chave para o enigma. Mengele
tinha o hábito de abreviar nomes. O cônsul deduziu então que Sama poderia se
referir ao bairro de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, onde Mengele tinha morado
O cônsul e o vice-cônsul, Fred Kaplan, consultaram edições antigas da
páginas amarelas e chegaram ao nome do doutor Hercy Gonzaga Gama Angelo,
em Santo Amaro. Acompanhado por um agente da Polícia Federal, o cônsul
visitou esse dentista. Ele confirmou ter feito um tratamento de canal nas datas mencionadas
por Mengele, em um paciente que se identificou como Pedro Hochbichler. Esse
era o primeiro nome falso usado por Mengele no Brasil. A má notícia é que o doutor Gama não
tinha raio-x da arcada dentária de Mengele. Mas ele se lembrava do
dentista que tinha indicado o paciente para o tratamento, o doutor Kasumasa Tutiya, cujo
consultório ficava a apenas algumas quadras dali. O cônsul foi então ao
consultório do doutor Tutiya, que se lembrava do paciente e perguntou
casualmente ao dentista se ele tinha algum raio-x de Hochbichler
O dentista respondeu: “espera um minuto”. Voltou trinta segundos depois, com oito
filmes dentários. A BBC News Brasil tentou contato com o dentistas, mas
ele não quis falar sobre o caso, que considera um episódio encerrado
na vida dele. Mesmo com o raio-x reforçando a conclusão dos cientistas, ainda
havia uma parte importante que não estava totalmente convencida: o governo de Israel
que só se convenceu quando foi feito em 1992 um exame de
DNA, comparando amostras retiradas dos restos mortais com amostras
do filho e da esposa de Mengele. O DNA confirmando oficiamente que a ossada
enterrada em São Paulo era do
criminoso nazista. E a
pergunta sem resposta nessa história é “como Mengele conseguiu viver impune por mais de
três décadas na América do Sul, quase 20 anos no Brasil, trocando cartas, recebendo
visitas de parentes em sítios, casas, fazendas, buscando tratamento
dentário em Santo Amaro, se escondendo em lugares óbvios”. Quantas pessoas sabiam
de sua verdadeira identidade e ajudaram a esconder no Brasil o criminoso
nazista? E se você quiser mais sobre essa história,
clique no link abaixo para ler a reportagem completa na BBC News Brasil
Até a próxima!

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